A MORTE E A VIDA DE SARITA DA SETE

  • Breno Vinícius Negreiros Martins Universidade Federal de Rondônia

Resumo

Pretende-se, através deste resumo, formular um documento em respeito à memória de Sarita da Sete, tendo em vista que muitas mídias não o fizeram. Tomarei a liberdade de não citar entre aspas o seu nome de guerra/social, devido o desconhecimento de outro nome, afastando-se a hipótese do uso do seu nome de registro civil. Na trajetória de Sarita surgem mais questionamentos do que respostas, e nestes se baseia o artigo. O título remete ao documentário “The Death and Life of Marsha P. Johnson” (2020), o qual relata e investiga, a partir da morte de Marsha, o legado da figura pioneira do movimento LGBTQIA+ ocidental. Hoje considerada uma mulher transexual/travesti, drag queen e ativista, Marsha é retratada como tendo um papel fundamental na conhecida como Revolta do bar Stonewall Inn, em Nova York (NY), EUA, em 1969. Questiona-se, durante o filme, as supostas motivações envolvendo a sua morte, tendo em vista que seu corpo foi encontrado no Rio Hudson, em 1992, tendo o suicídio como causa registrada. O corpo de Sarita também foi resgatado de um rio: o Rio Madeira, em Porto Velho (RO), Brasil, em 07/03/2020, sábado. A partir daí pontua-se que a repercussão midiática, quase à unanimidade, a tratou como pessoa do gênero masculino – desrespeitando sua identidade travesti –, e, ainda, como “morador(a)” de rua e figura irreverente. As buscas pelo seu corpo teriam se iniciado por volta das 8h do mesmo dia, durando, aproximadamente, duas horas até a encontrarem (com relatos nada respeitosos sobre o seu estado). Fora enterrada no dia seguinte. Sarita teria desaparecido no Porto Cai N’Água na tarde de sexta-feira, após ir para debaixo de um dos flutuantes. Supostamente, teria consumido entorpecentes e adentrado às águas do rio para banhar-se e brincar com as cordas que atracavam os barcos – segundo informações, um costume seu. Por ter estado em situação de rua e ter sido usuária de drogas e bebidas alcóolicas – que lhe trouxeram sequelas –, a morte de Sarita foi tida, por muitos, como acidente ou fatalidade que não causara tanta surpresa ou comoção. No entanto, mesmo sem haver, aparentemente, uma necessidade de se investigar a sua vida, se questiona: este é o fim esperado para as travestis em situação de rua em Porto Velho? Por que não interessa analisar os fatores que levaram Sarita a este caminho? Aproximadamente um ano antes de sua morte, em 12/03/2019, ela havia sido retirada das ruas por uma suposta amiga de infância, R. (abreviação do nome de registro, tendo em vista não ter encontrado outra referência). As mídias se referem a R. como “ex-travesti”; no entanto, a tratarei no feminino. Em uma entrevista, R. – na kitnet que morava em uma vila de apartamentos no bairro Mariana, zona leste da capital –, ao lado de Sarita, aduz que a amiga, com 25 anos de idade, estaria nas ruas há aproximadamente 15, período que se iniciou quando ela havia retornado de uma viagem à Brasília. Com ambas caracterizadas em uma identidade masculina, R. relatou que estava a ajudando, mas que necessitava da doação de alimentos, roupas e, principalmente, de auxílio médico e dentário. Afirmou, ainda, que a família de Sarita mora no Ceará. Ao final da entrevista, o repórter é avisado que bombeiros civis chegaram para a entrega de doações. Toda a situação é atravessada por dizeres típicos da Igreja Evangélica, a qual R., autointitulada “Guerreiro de Deus”, teria iniciado Sarita, e onde ela teria sido “convertida”, batizada, e estaria participando de cultos como “exemplo de salvação”. No entanto, em notícia de 21/11/2019, Sarita teria abandonado a recuperação e retornado às ruas. Procurada, disse que R. teria aplicado um golpe contra ela, o que fora negado por R. A continuação da história culmina nos fatos inicialmente apresentados. As diversas perspectivas levam às mais variadas conclusões. Sarita ao ser resgatada, acolhida, e ingressar em um processo de “cura” e reabilitação teve, ao mesmo tempo, negada sua identidade de gênero, seu nome, e, talvez, sua liberdade (nos mais diversos sentidos). Marsha, que inspirou o filme ao qual nos referimos, já esteve em situação de rua e, junto de sua amiga Sylvia Rivera, fundaram uma organização de acolhimento a pessoas trans desabrigadas. Seria este o auxílio que Sarita necessitava? Quantas Saritas ainda terão o mesmo fim? Batizada nas águas do que parece um rio, Sarita a ele retornou em sua morte, e, conforme a poesia de Hígor Cordeiro de Souza em seu nome: “e em meio às águas / ouvi um chamado / a mãe d’água passou / e virei encantada”.


 


PALAVRAS-CHAVE: Sarita da Sete. LGBTQIA+. Trans. Porto Velho.

Publicado
2021-10-15
Seção
Gênero, sexualidade e combate à violência