MATERNAGENS INSURGENTES

Mãe sim, Preta sim, Sapatão também

  • MIRIAN RODRIGUES PEDROSA Licenciatura em Física/IFRO. UNAMA: Universidade da Amazônia

Resumo

O artigo se propõe a analisar os processos de maternagens em vidas insurgentes e desobedientes das normas de gênero. Para tanto se utiliza principalmente, mas, não exclusivamente dos conceitos de decolonialidade em Cesaire (2020), feminismo decolonial em Vergè (2020), interseccionalidade em Akotirene (2019). O objetivo do texto é debater as muitas possibilidades do ser/estar sendo mulher no mundo (feminilidades) e a necessidade de entendimento da maternagem como um ato político de insurgência contra o estabelecido na perspectiva de educar para transgredir, com inspiração nos estudos de bell hooks (2019) e Paulo Freire (2016). A metodologia utilizada para a coleta e análise dos dados é a autoetnografia, movimento em que as pesquisadoras são ao mesmo tempo sujeitas e pesquisadoras. Narrativas desenvolvidas em primeira pessoa têm sido utilizada como uma estratégia importante nas pesquisas que buscam quebrar as amarras da colonialidade ao propor a reflexão crítica de temas ausentes nas pesquisas e debates na academia. Atualmente, a sexualidade permanece como alvo de controle de variadas instituições tradicionais, como o Estado, as igrejas ou a ciência. Na medida em que as pessoas minorizadas por suas escolhas sejam de orientação sexual, raça ou condição social começam a ocupar espaços e tornarem-se visíveis, os ataques e a luta entre elas e os grupos conservadores tornam-se mais explícitos e acirrados. “Se determinados setores demonstram crescente aceitação da pluralidade sexual, por outro lado, setores tradicionais renovam (e recrudescem) seus ataques, realizando desde campanhas de retomadas dos” valores tradicionais da família” a manifestações de extrema agressão e violência física.” (Louro, 2008, p. 28). Contudo, mesmo no enfrentamento de variadas formas de violência e rejeição social, algumas pessoas questionam a lógica rigidamente estabelecida ao corpo desejante e se arriscam na transgressão de limites. Na Região Norte do país, em espaços periféricos como Porto Velho, Capital de Rondônia, a igreja evangélica também representa a repressão aos instintos, à coerção a todo e qualquer comportamento que foge aos padrões e a busca de uma normalidade espelhada em uma visão conservadora. A representação social sobre certo e errado, normal e anormal é constituída a partir de um discurso sobre o que é proibido e permitido estruturado por uma rede de percepções e pressuposições sobre comportamento, beleza, jeitos e trejeitos que definem as performances de gênero, incluindo-se neste caso as representações sobre o que seria uma relação normal. A teoria do feminismo negro organizada em torno do matriarcado africano e do aquilombamento para o combate a solidão nos capacita e nos tornando mais forte enquanto professoras nos fortalece para um ativismo que tem intenção de mudar ao estabelecido para romper com a educação colonial, sexista e machista. A pauta interseccional na formação de professoras urge: entender a decolonialidade, raça e gênero como antecessores de classe são atributos essenciais para interpretar como o racismo se estende para a solidão da mulher preta, violência doméstica, ao desespeito as muitas formas de existir no mundo e nos vários sinônimos que o amor pode ter. Concluindo, importa saber que nesta altura da luta ninguém voltará para o armário, para a cozinha ou qualquer outro espaço em que não deseje estar. A resistência e a resiliência do exercício da transgressão deram o tom. E, ele é muito maior do que a colonialidade do pensamento jamais ousou pensar. Como resultado até o momento, apresentamos narrativas que reafirmam a perspectiva de que a resistência e a resiliência são atributos essenciais para as mulheres desobedientes das normas de gênero exercerem seu direito às suas maternagens.

Publicado
2021-10-15
Seção
Gênero, sexualidade e combate à violência